quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Iniciação ao goleiro de Handebol





Tive uma oportunidade única há algum tempo, quando era treinador de goleiros da Associação Campineira de Handebol: ter contato (apesar de terem sido poucos encontros, foram experiências muito ricas) com duas goleiras da categoria cadete (15 e 16 anos) que haviam tido pouca experiência como goleiras.

Ao iniciar o trabalho com elas, parti para uma metodologia tradicional de "ensino" visando trabalhar velocidade de reação e leitura do gesto da finalização:

  • Alongamento e aquecimento com trabalhos coordenativos;
  • Trabalho de reatividade com ações de finalização a gol de curtíssima distância do centro do gol (arremesso de 4 metros), realizando fintas antes das finalizações;
  • Rápido trabalho de bolas das pontas esquerda e direita, com finalizações feitas de pouco ângulo, mas com distância de 4 metros das goleiras.

Aos olhos de qualquer treinador, verifica-se que o trabalho foi dotado de bom planejamento para os objetivos do treinamento. Realmente foi, porém, a aula teve em seu desenvolvimento uma péssima compreensão das atividades por parte das goleiras. Sabe como percebi isso?

Perguntei a elas – Vocês sabem pra que serviu essa aula?

A reposta? Não houve resposta. Conversando mais com elas, percebi que ou (1) por jogarem muito pouco no gol durante a fase de iniciação, ou (2) por terem tido uma iniciação que não apontava para elas caminhos de compreensão das ações do goleiro, elas não sabiam sequer "o que era ser e quais as possibilidades de atuação do goleiro de handebol."

Imaginem vocês, entrando num novo emprego, de uma empresa já firmada no mercado, na função de secretaria. Ao chegar ao ambiente de trabalho sentam você numa cadeira e dizem – "atenda os telefonemas e agende as atividades do chefe". Aparentemente você foi apresentado ao seu serviço. Mas de repente os telefonemas se iniciam, e além do agendamento de reuniões do seu chefe, telefonemas que não deveriam ser direcionados para aquele ramal passam a chegar lá. Chegam telefonemas do departamento de compras, rh, financeiro etc.. O que fazer numa hora dessa? Você não sabe os ramais desses departamentos para direcionar as ligações para estes. Então você passa a perceber que na realidade você não foi devidamente apresentado ao seu trabalho, logo, não estava sendo capaz de realizá-lo com êxito.

A mesma coisa acontece na iniciação esportiva e no caso desse texto, na iniciação ao goleiro de handebol. Imaginem a dificuldade de fazer uma aula onde as respostas das atividades já estejam dadas, onde o goleiro não compreende a atuação de seu posto específico num jogo de handebol.

Essa foi a reflexão que fiz. Na época, mesmo sendo um professor que adotava a visão sistêmica e do jogo como meu paradigma de trabalho, ainda tinha – e porque não dizer, tenho – algumas dúvidas de como solucionar problemas metodológicos de ensino dos jogos coletivos, e nesse caso do handebol, para algumas situações do jogo.

Pensando no goleiro de handebol, aquela era minha primeira experiência com alunas em perfil de iniciação esportiva, e mesmo sabendo disso, tentei-me ao engodo do tecnicismo e sua visão miope de ensino (ver mais sobre esse tema no texto A miopia embutida no tecnicismo – porque não usá-lo na iniciação ao handebol).

Porém, após realizar a reflexão anteriormente discutida, passei a me preocupar em tentar abordar o ensino do posto específico de goleiro a partir da visão sistêmica, através de jogos pedagógicos e da compreensão do jogo.

Resumidamente, as atividades passaram a ter grande teor de conversas e reflexões para a ação. Um exemplo de reflexão sobre as funções do goleiro de handebol era referente à necessidade que as goleiras tinham de agarrar a bola a ser defendida, fazendo ser necessário o domínio dela sem gerar rebote.

Conversei com elas, e concluímos que essa atitude por elas realizada tinha como influência a maior experiência delas como goleiras ou espectadoras de futebol (ou futsal, que acredito que tenha sido classificado como futebol, por elas).

A partir dessa conclusão destacamos em nossa conversa as principais diferenças entre as regras do futebol/futsal e do handebol, quando temos o goleiro como referencial da análise.

Nossa discussão partiu principalmente para a observação da diferença entre a concepção da área do goleiro de futsal e de handebol. No futsal, a área é a região que limita onde o goleiro poderá atuar com as mãos no jogo, já no handebol a área é "exclusivamente" uma região do goleiro, sendo, portanto uma área a ser explorada por ele para segurança de suas defesas.

Discutimos também como eram anotados os escanteios no futsal e no handebol. Tendo o goleiro como foco de discussão, no futsal o escanteio sempre é marcado se o goleiro rebater a bola para a linha de fundo; já no handebol, se o goleiro rebater a bola para linha de fundo será marcado tiro de meta, sendo, portanto mais um espaço de jogo a ser explorado pelo goleiro de handebol.

Essa discussão, que durou pouco mais de 10 minutos, mudou radicalmente a percepção das goleiras iniciantes para as funções do goleiro num jogo de handebol e também para as atividades que foram abordadas.

Nessa discussão, fui apenas mediador, as conclusões foram tomadas pelas alunas, eu auxiliava-as quanto ao conhecimento das regras e as respostas vinham delas.

Compreendido esse recurso favorável ao goleiro – utilização da área e da linha de fundo, mostrando que bolas rebatidas eram também boas defesas para os goleiros, desde que essas bolas fossem dominadas posteriormente em sua própria área – foi possível observar que em pouco tempo fez-se perceber a importância de fechar espaços com o corpo e não mais em utilizar as mãos como único recurso defensivo, liberou-se com espontaneidade a utilização dos pés, coxas, antebraços e com alguma dificuldade, mas também sendo utilizado, o tronco.

Verificou-se também uma construção própria para a técnica de "abafar" a bola em direção ao chão facilitando o domínio da bola em dois tempos de maneira rápida e segura, sem que houvesse a necessidade de apontar essa como uma forma de executar a defesa.

No fim das contas, demorei aproximadamente quatro aulas para ensinar às goleiras iniciantes a utilizar a área como auxiliar de suas defesas, um espaço a seu favor, desobrigando-as a agarrar bolas. Não precisando mais agarrá-las, fez surgir então o desenvolvimento de técnicas de defesa que visem em um primeiro momento fechar a trajetória da bola ao gol e num segundo momento de dominá-la por completo.

Obviamente que essas atitudes não foram dotadas de excelência esportiva, pois por se tratar de iniciação, acredito que a compreensão preceda, dentro de um processo pedagógico, a excelência técnica, pois compreendendo os porquês, facilita-se o caminho da compreensão dos comos.

Talvez, sob a perspectiva tecnicista, onde o ensino dos comos precedam o dos porquês tenhamos uma aparente aprendizagem mais rápida. No entanto, um trabalho cujo perfil seja a de execução de tarefas, como se o jogo fosse dotado de inúmeras habilidades fechadas, na realidade transformamos nossos alunos em reprodutores de tarefas e não goleiros que compreendam porque jogam.

Dizer, simplesmente, para nosso aluno que ele deve abafar a bola, e só, com certeza é mais rápido e imediato do que fazê-lo perceber e refletir que "abafar" ou "não agarra a bola" está associado à proteção que a área dá a ele para agir dessa forma, no entanto, o aprendizado somente será consumado com a compreensão e não com a simples execução automática de uma tarefa descontextualizada do jogo.

Do excelente blog Pedagogia do Handebol





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