segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Correlação entre alongamento e flexibilidade na prevenção das principais lesões em nadadores




A natação é um dos esportes mais praticados no Brasil e no mundo, e indicado muitas vezes por profissionais da área de saúde como um dos exercícios mais completos tanto para ambos os sexos quanto para qualquer idade, com mínimas restrições e contra-indicações, achou-se então por bem, evidenciar a necessidade e o valor do uso de exercícios de flexibilidade nas sessões de natação, com a finalidade de se impedir a ocorrência de lesões.

    Os animais aquáticos mostraram aos homens que era possível mover-se na água, sem submergir. Eles aprenderam a lição de tal forma que na Grécia e em Roma, a natação foi adotada como exercício para treinamento de soldados. Como esporte, a natação foi prejudicada, durante muito tempo, pela crença de que ajudava a disseminar epidemias (MACHADO, 1998). Hoje com o aumento da procura das pessoas por uma melhor qualidade de vida e com a rapidez dos avanços científicos, a Educação Física se tornou um campo com respaldo muito grande e dentro dele a Natação se encontra como uma das suas áreas de maior abrangência, consequentemente há uma maior exposição dos indivíduos a quadros de stress, over trainning e maior incidência de lesões em todas as faixas etárias, principalmente na cintura escapular, articulações do cotovelo e joelho. Este artigo visa buscar respostas baseando-se em outros autores, em artigos de periódicos e livros; para uma aplicação e fundamentação a respeito dos exercícios de flexibilidade em complemento aos exercícios aquáticos como fator determinante na prevenção da ocorrência e lesões. Serão abordados aspectos, tais como, onde e quando devem ser usadas as várias formas de exercícios de flexibilidade, em que período ou períodos de treinamento devem ser feitos, até que ponto são benéficos, qual o tempo ideal para serem feitos.

Flexibilidade

    A flexibilidade é considerada como um importante componente da aptidão física relacionada à saúde e do desempenho atlético (MATHEWS, 1980). É definida por Gettman (1994) como a capacidade de movimentar as partes do corpo, através de uma ampla variação de movimentos sem distensão excessiva das articulações e ligamentos musculares; basicamente ela se manifesta de duas formas: flexibilidade estática e dinâmica. A flexibilidade é bastante específica para cada articulação, podendo variar de indivíduo para indivíduo e até no mesmo indivíduo, sendo assim, um indivíduo que apresente níveis elevados de flexibilidade em determinada articulação, necessariamente não irá apresentar índices equivalentes a este nas demais. Basicamente a flexibilidade é resultante da capacidade de elasticidade demonstrada pelos músculos e os tecidos conectivos, combinados à mobilidade articular, com isso, a manutenção de uma boa elasticidade dos tecidos musculares e conectivos, poderá garantir a manutenção de níveis desejados de flexibilidade. Alguns fatores como sexo e idade, temperatura corporal e estado de treinamento, apresentam influência direta sobre a estrutura e composição desses tecidos, levando consequentemente a um comportamento bastante diversificado dos níveis de flexibilidade articular. Além desses fatores, acredita-se que a estrutura das superfícies articulares e a elevada concentração de tecido adiposo em torno das articulações, influenciem de forma negativa os níveis de flexibilidade articular, possivelmente esse comprometimento da flexibilidade em determinadas articulações deve estar a um aumento do atrito entre as superfícies articulares. Em geral as mulheres têm demonstrado maiores níveis de flexibilidade do que os homens, independente da idade, essas diferenças se mantêm ao longo de toda vida. Weineck (1991) considera que essas diferenças são provenientes de uma maior capacidade de estiramento e elasticidade da musculatura e dos tecidos conectivos no sexo feminino.

    Independente do sexo, vários autores têm descrito que a flexibilidade decresce com a idade, por sua vez Phillips & Haskel (1995) apontam que um decréscimo mais acentuado só é verificado a partir dos 30 anos. Esta redução parece estar estreitamente associada a uma diminuição da capacidade de estiramento dos tendões, ligamentos e músculos, devido a uma perda de água, fibras elásticas, mucopolissacarídeos. Por outro lado, associa-se esta redução mais a um decréscimo nos níveis de atividade física decorrente do avanço da idade do que ao processo de envelhecimento. Levando em consideração que alguns autores têm descrito que os níveis de atividade física habitual se reduzem com a idade (FLECK, 1993; PEREIRA, 1985), ao mesmo tempo em que são observadas alterações nas propriedades elásticas dos tecidos conectivos, parece coerente sugerir que a redução dos índices de flexibilidade em função da idade está condicionada a uma ação conjunta destes dois fatores.

    Referindo-se ao estilo de vida, em relação à prática de atividades físicas regulares, os indivíduos mais ativos normalmente têm se mostrado mais flexíveis do que os indivíduos menos ativos (POLLOCK & WILMORE, 1993). Isto se deve a um possível encurtamento dos tecidos colágenos, tornando-os rígidos e conseqüentemente reduzindo sua capacidade de elasticidade devido à falta atividade física regular. Entretanto, mesmo aqueles indivíduos considerados ativos, como no exemplo dos maratonistas, os níveis de flexibilidade podem ser bastante reduzidos caso não realizem atividades físicas que envolvam extensão total dos segmentos.

    Sendo assim, percebe-se que a relação entre flexibilidade e estilo de vida ativo, parece não ser uma relação de causa - efeito (indivíduo ativo - indivíduo flexível), e sim dependente da amplitude dos movimentos realizados nas atividades. Para que as atividades físicas tenham influência positiva sobre os níveis de flexibilidade, as articulações devem ser solicitadas acima da amplitude de movimento habitual. Os exercícios contra resistência (musculação) realizados com amplitudes articulares reduzidas, combinados a ausência de alongamentos, podem promover reduções na flexibilidade articular (DANTAS, 1984), quanto a esse assunto, Monteiro & Farinatti (1996) ao analisarem os efeitos agudos de um programa de musculação verificaram efeitos negativos sobre os índices de flexibilidade, sendo os indivíduos do sexo masculino os mais afetados.

Flexibilidade e aptidão física relacionadas à saúde

    Embora as exigências de bons níveis de flexibilidade em relação à saúde sejam largamente descritas, ainda não se conseguiu esclarecer de forma cientifica, quanto de flexibilidade seria necessário para o ser humano. Segundo Monteiro (1996) o que se sabe é que existe a necessidade de níveis mínimos de flexibilidade, quer seja como forma de prevenção contra determinadas patologias, ou para um melhor desempenho atlético. Alguns valores referenciais adotados na avaliação da flexibilidade de adultos podem ser encontrados em Pollock (1993), contudo a aplicação destes indicadores referenciais parece ser bastante limitada, quando da sua aplicação em populações que apresentam características distintas daquelas que a originou. Outra limitação desses indicadores referenciais segundo Phillips (1995), diz respeito à necessidade de considerar o nível de flexibilidade em cada articulação, tendo em vista que as realizações das tarefas do cotidiano apresentam exigências diversificadas quanto a esse aspecto, sendo a assim, esses valores referenciais podem deturpar o julgamento efetuado em termos de avaliação da aptidão física e prescrição de exercícios. Se por um lado ainda não se conseguiu determinar o nível de flexibilidade considerado ideal, por outro e consensual entre diversos autores (POLLOCK & WILMORE, 1993; MATHEWS, 1980), que valores extremos de flexibilidade (hiperflexibilidade) podem promover uma instabilidade articular e quando combinados a movimentos repetitivos e de rotação podem promover significativas disfunções no sistema músculo - articular.

    A manutenção de bons níveis de flexibilidade nas principais articulações tem sido comumente associada a: maior resistência as lesões (DANTAS, 1984), menor propensão quanto à incidência de dores musculares, principalmente na região dorsal e lombar e prevenção contra problemas posturais. Ainda não se dispõe de informações suficientes que permitam esclarecer a influência da flexibilidade na redução de lesões no sistema músculo-articular, no entanto, Hall (1993) afirma que quando os tecidos que atravessam as articulações se mostram menos extensíveis existe maior probabilidade de ocorrer rupturas e estiramentos, sobretudo, quando a articulação é forçada acima do seu arco de movimento normal. Na população em geral, a escassez de flexibilidade principalmente na região de tronco e quadril (coluna vertebral) tem sido apontada como fator de risco para o desencadeamento de dores lombares e problemas posturais. Cerca de 80 por cento das dores lombares são causadas pela combinação de níveis de flexibilidade articular reduzidos, musculatura abdominal flácida e problemas posturais. Ao realizar um estudo com adultos Ashmen (1996) observou em indivíduos com dor lombar crônica déficit de flexibilidade, força e resistência muscular localizada nas regiões de coluna e quadril. Todavia, não se podem associar de forma direta todos os problemas de postura e dores lombares a uma escassez de flexibilidade articular.

Exercícios de flexibilidade

    Acredita-se que a manutenção e o desenvolvimento dos níveis de flexibilidade possam ser obtidos através de exercícios de alongamento, independente da determinação genética (POLLOCK & WILMORE, 1993) e do nível de flexibilidade inicial; estes exercícios exercem influência sobre a estrutura e a composição bioquímica dos tecidos conectivos, mantendo ou elevando a sua capacidade de extensibilidade, por esse motivo, tem sido apontados como os exercícios específicos mais indicados com relação a essa finalidade de desenvolvimento da flexibilidade.

    No treinamento da flexibilidade, tem-se utilizado os métodos estático, dinâmico e de facilitação neuro-proprioceptiva (FNP), também conhecida como método 3s. Esses três métodos têm demonstrado eficácia no desenvolvimento da flexibilidade (POLLOCK & WILMORE, 1993), cada um apresentando vantagens e desvantagens. Em um estudo experimental com objetivo de verificar a eficiência dos três métodos de treinamento da flexibilidade, Nunes (1986) submeteu um grupo de 51 universitários, divididos em três grupos, a um programa de flexibilidade que consistia em duas sessões semanais de 50 minutos durante 11 semanas, sendo a determinação dos níveis de flexibilidade realizados a partir da aplicação do teste de Wells & Dillon, no referido estudo, observaram que os três métodos (estático, dinâmico e FNP) são eficazes na melhoria da flexibilidade.

    Para que os efeitos associados aos exercícios de alongamento sejam progressivos e permanentes, é necessário um aumento do tempo de permanência na posição de alongamento (MOFFATT, 1994) e ou maiores amplitudes articulares, bem como a aderência do indivíduo ao programa.

    Outra questão bastante polêmica, diz respeito ao momento certo para realização desses exercícios. Pollock & Wilmore (1993) têm defendido que os mesmos possam ser executados durante as fases de aquecimento e de volta à calma. Existem algumas evidências de que a sua realização após exercícios de alta intensidade ou exercícios com pesos de caráter excêntrico têm apresentado algumas restrições, tendo em vista a maior probabilidade de lesões no tecido muscular. Por outro lado, a execução do alongamento após a prática de exercícios de intensidade moderada vem sendo defendida por Pollock & Wilmore (1993) que considera a elevação da temperatura corporal uma vantagem em relação à capacidade de extensibilidade dos tecidos conectivos, o que resultará em maiores ganhos em termos de flexibilidade.

Objetivos e benefícios dos exercícios de flexibilidade em nadadores

    Segundo (ALTER, 1988 e DANTAS, 1999) os exercícios de alongamento e flexibilidade potencializariam:

Aperfeiçoamento motor;

Aprimoramento ou manutenção da flexibilidade;

Melhoria da eficiência mecânica;

Profilaxia de lesões;

Desenvolver a consciência corporal, melhorar a postura (cinestesia);

Diminuição da fadiga e auxílio na remoção do ácido lático;

Redução de tensões musculares e maior relaxamento muscular;

Melhoria da contratilidade muscular;

Aumentar amplitude dos movimentos;

Principais lesões decorrentes da natação

    A extrema amplitude de movimento do complexo do ombro, combinada a instabilidade inerente da região, torna-o suscetível a uma variedade de lesões, de intensidade diversas, que são comuns na execução de tarefas diárias, bem como em atividades desportivas. As lesões associadas a micro traumatismos são aquelas que envolvem forças que sobrepujam as propriedades mecânicas dos tecidos, que sejam osso, músculo, cartilagem, tendão (BATES & HANSON, 1998).

Síndrome do impacto do ombro

    Segundo Terreri (1998) resulta de micro traumas de repetição aos tecidos que estão no espaço umerocoracoacromial, ou seja, tendão do supra-espinhoso, cabeça longa do bíceps, bursa subacromial ou articulação acromioclavicular. Estes tecidos podem estar sujeitos a impacto de repetição entre a tuberosidade maior e o acrômio. Se o úmero estiver em rotação externa ou neutra; ou sob o espesso ligamento coracoacromial. Se o úmero estiver rodado internamente quando o braço estiver abduzido acima de 800. Se através de micro traumas de repetição estas estruturas se tornam edemaciadas e inflamadas, o espaço subacromial se torna cada vez mais restrito, limitando o movimento.

Tendinite de ombro

    A tendinite mais comum é a do Supra-espinhoso, que realiza imensa quantidade de movimentos, sofrendo micro traumas repetitivos, podendo chegar à degeneração progressiva e necrose (BATES & HANSON, 1998).

    Abduções repetitivas levam processos inflamatórios e degenerativos do tendão do manguito rotador (grupo de músculos responsáveis pela rotação externa e abdução do ombro), resultando algumas vezes na ruptura parcial do músculo, que se traduz na dificuldade de abdução e nas formas adquiridas e nas formas agudas, na impossibilidade de movimentos com o braço devido à dor. O quadro doloroso não se restringe ao ombro, mais atinge partes do membro, região da Escápula e do pescoço.

Manguito rotador

    Segundo Kapanji (1988), os músculos do manguito rotador são suscetíveis a micro traumatismos (traumatismos submáximos) repetidos que podem resultar numa lesão estrutural. Muitas vezes, a fonte da lesão é a colisão com o arco Coracoacromial quando a Articulação Glenoumeral é abduzida ou fletida. De fato, a síndrome de colisão, que não se limita a problemas do manguito rotador, mas inclui a Bursite e Tendinite do bíceps, é o problema de ombro mais comum na natação.

    Basicamente, a colisão se dá devido ao espaço limitado abaixo do arco Coracoacromial para passagem de certas partes do Manguito rotador. A colisão pode envolver o tendão do Supra-espinhal ou Bíceps do braço. Na síndrome do arco doloroso o Tubérculo Maior colide com o arco Coracoacromial. A colisão pode ser produzida se o volume da musculatura for aumentado por hipertrofia ou edema resultante de lesão (em geral um processo dependente de tempo associado a micro traumatismos repetidos) e se o espaço disponível for diminuído por crescimento ósseo que invada o tecido.

    Por exemplo: Considere um nadador do estilo livre, que pode abduzir cada ombro até 7200 vezes durante uma sessão de treinamento, neste caso, um micro traumatismo do manguito pode resultar em inflamação que leva a edema e, por conseguinte, maior colisão e outro micro traumatismo.

Bursite do ombro

    Segundo Terreri (1998) existem numerosas bursas em todo o corpo e estas podem ser sitio de inflamação localizada, freqüentemente associada a depósitos amorfos de cálcio. Entre os bursas mais freqüentemente afetadas estão os bursas Subdeltoide e Subacromial do ombro.

    Os pacientes com bursite de ombro, geralmente apresentam história de dor aguda e limitação da movimentação. O ombro se mostra doloroso a Palpação, a dor a movimentação passiva é muito forte. Embora o estudo radiológico revele freqüentemente calcificação, tais depósitos são geralmente ausentes. Muitos casos de Bursite de Ombro se associam a inflamação concomitante do tendão do músculo Supra-espinhoso. A Bursite de ombro pode apresentar uma reação secundária a tendinite, quando os depósitos tendinosos de cálcio se rompem nas bursas subjacentes. Os sintomas relacionados especialmente a bursite do ombro devem ser diferenciados da inflamação dos tendões das áreas do ombro e do rompimento das bainhas músculo-tendinosas.

Conclusão

    Os empregos de exercícios de flexibilidade atuam na prevenção e diminuição do risco e acontecimento de lesões tanto da cintura escapular, quanto da estrutura do joelho tanto por esforço repetitivo (LER), quanto de estiramentos e rupturas. Aumento da capacidade de remoção de substratos e toxinas produzidas e acumuladas durante sessões se treinamento.

    Facilitação e melhor desempenho do sistema Osteo-articular e Neuromuscular para a execução de gestos técnicos específicos da modalidade (melhora biomecânica do nado) e conseqüente melhora de performance e aumento da vida útil do atleta. Segundo Dantas (1988) Acredita-se que com o uso adequado, continuo e correto dos exercícios de flexibilidade; haverá melhora de desempenho e eficiência mecânica dos nadadores, manutenção da força e maior resistência a sobrecargas e uma diminuição ou queda total do risco de lesões, sejam elas de qualquer origem

    Segundo Alter (1999) e Dantas (1999), sessões de exercício de flexibilidade podem ser sugeridas durante todos os períodos de treinamento, antes e após cada sessão de treinamento,eles embora não tendo respaldo científico sugerem que o emprego dos exercícios facilitaria, manteriam e acelerariam o processo de recuperação energética e metabólica dos músculos.

    Devendo ser aplicados estímulos de até quatro repetições de no mínimo quinze segundos e de no máximo 40 segundos para cada exercício de alongamento (PEREIRA 1996).

Autores:

Mario Roberto Guagliardi Júnior* marioguagliardi@ig.com.br

Ricardo de Oliveira Silva* ricardooliveira@univercidade.edu.br

Rakely Soares Pontes** rakelysp@gmail.com

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