segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Princípios e recomendações básicas para o trabalho de desenvolvimento dos fundamentos técnicos do handebol no treinamento de base







"Ainda se comete o erro de realizar um treinamento altamente especializado - unilateral - precocemente em crianças e adolescentes" (Ehret et al., 2002). No handebol, este erro é percebido principalmente quando analisamos o treinamento dos fundamentos técnicos, já que a maioria dos profissionais militantes na área se utiliza apenas do ensino através da repetição mecânica do gesto técnico, sem colocá-lo no contexto do jogo em si. 


As considerações realizadas no presente artigo objetivam demonstrar quais são os principais fundamentos técnicos do handebol e como estes podem ser trabalhados na iniciação esportiva com crianças e adolescentes. Na proposta aqui apresentada consideramos o treinamento de base como o período ideal para o início do ensino dos fundamentos técnicos do handebol, sendo que o começo deste período de treinamento se dá por volta dos 10 anos de idade, ou seja, adotamos como princípio geral que todas as habilidades motoras básicas já estão bem desenvolvidas, assim como também que o aluno já possui uma pequena experiência motora esportiva adquirida com a prática lúdica de esportes realizada anteriormente ao treinamento de base.

Inicialmente falaremos sobre o treinamento de base enfocando seus objetivos e características, assim como também as fases que devem compor uma sessão de treinamento. Em um segundo momento descreveremos os principais fundamentos técnicos do handebol. Posteriormente serão expostos alguns princípios que são recomendados na realização de um trabalho que objetiva o desenvolvimento dos referidos fundamentos. Finalmente, apontaremos algumas conclusões em relação ao que foi descrito ao longo de todo este artigo de pesquisa.

Treinamento de base

O treinamento de base tem início por volta dos 10 anos de idade e em nossa opinião se constitui no período ideal para o início dos trabalhos com os fundamentos técnicos da modalidade esportiva praticada, no caso do presente estudo, o handebol.

Segundo Guerra (2003) os principais objetivos do treinamento de base são:

• Apresentar os conteúdos técnicos e táticos do esporte, através da combinação de pequenos grupos (3 pessoas no máximo).

• Desenvolver a capacidade tática individual do aluno no sentido de enfatizar que o mesmo deve compreender a ação tática, independente do seu nível de rendimento pessoal.

• Desenvolver a capacidade de jogo básica.

Nesta etapa de sua vida esportiva o aluno executará uma resposta motora que requer um plano motor parcialmente definido pelo professor. A principal característica neste momento é que a ênfase do praticante deve ser na correção da resposta motora.

Normalmente se afirma que uma sessão de treinamento de base é dividida em 3 fases distintas: jogos motores, fase de fundamentos e jogo de aplicação.

Na fase de jogos motores, como o próprio nome indica, são utilizados jogos que estimulem o desenvolvimento das habilidades motoras específicas do esporte, através de um trabalho que priorize a ludicidade e recreação no intuito de despertar a motivação dos alunos para aquela sessão de treinamento. Esta fase contribui com o aquecimento, com o exercício do pensamento cognitivo e com o exercício dos comportamentos técnicos/táticos/normativos do esporte praticado.

A fase de fundamentos é aquela onde são trabalhadas as técnicas específicas do esporte. No caso do handebol, os passes, recepções, progressões, arremessos e dribles são as técnicas básicas desenvolvidas. Nesta fase tanto podem ser usados jogos como também exercícios. O importante é que o aluno vivencie os fundamentos trabalhados. Também deve se ressaltar a importância em desenvolver atividades que explorem comportamentos ofensivos e defensivos, sempre respeitando as condutas normativas do esporte, assim como também introduzindo paulatinamente os principais elementos táticos da modalidade esportiva em questão.

Por último temos a fase do jogo de aplicação, cujo objetivo é desenvolver jogos-teste no próprio treinamento, os quais deverão ser construídos em função das técnicas básicas trabalhadas na fase de fundamentos. Cada jogo deverá ser desenvolvido para que o praticante crie suas próprias opções estratégicas de conduta.

Distinguindo estas 3 fases durante a elaboração de sua aula, existe grande possibilidade do professor desenvolver um trabalho de excelente qualidade e que atingirá os objetivos propostos pelo processo ensino-aprendizagem.

Fundamentos técnicos do handebol

Vimos no tópico anterior que existe uma fase na sessão do treinamento de base que objetiva desenvolver os fundamentos técnicos básicos do esporte praticado. Também observamos que no handebol, estes fundamentos são em número de 5: passes, recepções, progressões, arremessos e dribles. A partir de agora descreveremos cada um destes elementos de uma forma mais detalhada e específica.

Passes

Os passes são fundamentos técnicos que devem ser utilizados sempre em progressão ao gol, cujo trabalho a ser desenvolvido pelo aluno deve obedecer a algumas recomendações básicas por parte do professor. São elas:

• Passar e deslocar-se, sempre procurando os espaços vazios na quadra;

• Sempre que for passar, entrar em contato visual com quem vai receber (observar a linha de passe);

• Sempre é interessante que se realize um trabalho onde exista estimulação da mudança de sentido e do ritmo do passe (quebra de ritmo e velocidade), dificultando assim a ação do adversário;

• Estimular os alunos a observarem o momento do passe (tempo do passe);

Basicamente existem 5 tipos de passes: passe de ombro, passe por trás do quadril, passe por trás da cabeça, passe de pronação e passe pendular. Quando o trabalho for de iniciação e visar o aprendizado deste fundamento, 2 tipos de situações metodológicas podem ser adotadas: o tipo simples, onde o trabalho inicial se realiza com pequenos grupos de 2-3 alunos, com uma bola e sem defensor; e o tipo complexo, onde também se trabalha com grupos de 2-3 alunos, porém com maior número de bolas e defensores em igualdade numérica. O tipo simples deve ser trabalhado primeiro e o seu objetivo é que o aluno aprenda o fundamento sem ter que se preocupar com ações defensivas. Já no tipo complexo o objetivo é que o aluno aplique o fundamento que está sendo aprendido em situações de pressão espaço-temporal (com defensores).

Também é importante dizer que não só o trabalho com passes, mas também com os outros 4 fundamentos, deve ser realizado, sempre que possível integrado a uma introdução de situações táticas que poderão vir a ser utilizados futuramente na prática esportiva do handebol.

Recepções

A recepção é um fundamento técnico cujo principal objetivo é dar ao jogador um inteiro domínio sobre a bola passada a ele. No handebol existem 3 tipos de recepções: recepção alta, recepção média e recepção baixa.

No processo de iniciação esportiva recomenda-se que os 3 tipos de recepções sejam desenvolvidos em conjunto com os passes, sendo que a ênfase inicial do trabalho deve ser no domínio correto sobre a bola de modo que a mesma não saia da posse de sua equipe.

Progressões

A progressão, como o próprio nome indica, é um fundamento técnico cujo principal objetivo é dar ao jogador a condição de progredir em direção a quadra adversária no intuito de conseguir o melhor posicionamento possível dentro das variantes ambientais que o jogo oferece. No handebol existem 3 tipos de progressões: o drible, os 3 passos e os 3 passos + drible + 3passos. Mais adiante descreveremos o drible de uma forma mais específica.

No trabalho para o desenvolvimento dos 3 tipos de progressões o mais importante é conscientizar o jogador de que ele sempre deve estar em um deslocamento progressivo procurando os espaços vazios em quadra, tanto quando estiver com a posse da bola como também quando estiver sem a posse da bola.

Arremessos

O arremesso é um fundamento técnico que possibilita ao jogador fazer ou não o gol na equipe adversária. Basicamente, podemos afirmar que existem 3 tipos de arremessos no handebol. São eles: arremesso básico, arremesso com salto e arremesso com queda.

No trabalho de desenvolvimento do arremesso deve-se explorar uma maior variabilidade possível dos 3 tipos de arremessos, sempre respeitando os princípios da versatilidade e universalidade, sendo também de fundamental importância que se oriente para o aproveitamento ótimo do arremesso tanto em direção quanto em força. Algumas recomendações importantes que devem ser dadas ao jogador são que o arremesso deve preferencialmente ser realizado após uma condução de bola com as duas mãos, somente levando a mesma para a mão que vai arremessar durante a construção do arremesso. Também é interessante que o arremesso seja realizado depois de uma finta, onde o jogador terá maior facilidade em encontrar uma posição favorável dentro das condições que o jogo oferece para a realização do arremesso em direção ao gol adversário.

Dribles

O drible é um fundamento técnico utilizado como recurso que visa primariamente progredir em direção ao gol adversário. No handebol existem 2 tipos de dribles: o drible alto, utilizado para deslocamentos em grande velocidade e fundamental para um bom contra-ataque; o drible baixo, utilizado basicamente para a proteção de bola. Os principais objetivos do drible, além de melhorar a proteção e o deslocamento com a bola, são: fintar a defesa, sair da marcação e conquistar uma posição de arremesso favorável.

No trabalho de desenvolvimento do drible 2 problemas devem ser combinados na hora de elaborar e executar uma atividade: melhorar a técnica do drible ao mesmo tempo que dotar este fundamento de uma função tática dentro do contexto do jogo. É importante também conscientizar o jogador de que o drible somente deve ser utilizado quando realmente for necessário; isto é fato porque o drible no handebol não é a primeira opção de progressão. O uso dos 3 passos se constitui em uma grande vantagem para o jogador e por isso deve ser priorizado, sendo, portanto, a primeira opção.

Os principais erros observados na execução do drible e que devem ser corrigidos são: driblar olhando para a bola, driblar sem progredir, driblar sem uma função tática e driblar sem proteger a bola.

O processo ensino-aprendizagem que tem como objetivos desenvolver o drible, e os 4 fundamentos técnicos descritos anteriormente, deve ser prioritariamente realizado seguindo alguns princípios e recomendações básicas. A seguir, detalharemos mais este assunto.

Princípios e recomendações básicas para o trabalho de desenvolvimento dos fundamentos técnicos

Basicamente existem 3 princípios que devem nortear um processo que objetiva o desenvolvimento dos fundamentos técnicos do handebol. São eles: delimitar objetivos concretos, trabalhar com persistência temporal e realizar atividades que desafiem os jogadores a aplicar as ações técnicas/táticas do fundamento dentro do contexto do jogo. Quando falamos em objetivos concretos estamos nos referindo aos objetivos claros e possíveis de serem alcançados, estabelecidos de acordo com os princípios da progressividade e complexidade, devendo ser introduzidos de um modo que os jogadores construam soluções para atingi-los. Neste contexto, a persistência temporal entra como elemento fundamental, pois as repetições disponibilizam tempo suficiente para que o aluno compreenda o gesto técnico/tático que o exercício esteja propondo, assim como também identifique diferentes formas de aplica-los dentro das condições que a situação do ambiente oferece. Este ambiente deve ser construído de uma maneira que os fundamentos técnicos trabalhados sejam aplicados em situações semelhantes ao do jogo em si, e não somente através de exercícios repetidos mecanicamente e que acabam isolando o fundamento do contexto do jogo.

Guerra (2003) nos fala também que, aliados aos 3 princípios descritos anteriormente, existem 4 recomendações que devem ser levadas em consideração no momento de construção das atividades. São elas:

• Razão bola/aluno: delimitar quantas bolas serão necessárias em decorrência do número de alunos que realizarão a atividade proposta.

• Dinamismo e participação: trabalhando sempre em ataque versus defesa, estimular que no treinamento haja a participação com o mesmo comportamento do jogo esportivo em si, ou seja, com vontade, empenho e concentração.

• Normas: em função da maturação biológica/esportiva dos jogadores, construir normas adequadas e seguindo condutas normativas básicas do esporte praticado.

• Razão tempo/nº de jogadores: o trabalho deve ser realizado de uma maneira que todos os jogadores atuem o mesmo tempo durante o treinamento.

Acreditamos que, seguindo estes princípios e recomendações, o professor que trabalha com o handebol no treinamento de base será capaz de elaborar e executar atividades que proporcionem aos seus alunos o pleno aprendizado e desenvolvimento dos fundamentos técnicos deste esporte.

Considerações finais

O presente artigo procurou de forma bastante clara e objetiva apontar algumas diretrizes que o professor de handebol na escola pode seguir, se assim desejar, no trabalho de desenvolvimento dos fundamentos técnicos deste esporte com crianças e adolescentes. Em vista disso, 3 conclusões principais podem ser verificadas com o presente estudo. São elas:

• Em uma sessão de treinamento de base existem 3 fases distintas: a fase de jogos motores, a fase de fundamentos e a fase dos jogos de aplicação. O ensino dos fundamentos técnicos do handebol deve prioritariamente ser realizado nas 2º e 3º fases da sessão, enquanto que a 1º fase pode explorar apenas atividades lúdicas que contribuam com o aquecimento e com o despertar do interesse da criança pela atividade praticada.

• Os fundamentos técnicos do handebol que devem ser desenvolvidos são em número de 5: passes, recepções, progressões, arremessos e dribles. Cada um deles deve ser trabalhado de acordo com suas especificidades, porém não devem ser desenvolvidos de forma isolada uns dos outros e sim de forma conjunta e integrados, sempre praticando atividades dentro do contexto do jogo esportivo em si e não através de exercícios estanques repetidos mecanicamente até a exaustão.

• Seguindo os princípios da persistência temporal, do desafio aos alunos e da delimitação dos objetivos concretos durante a elaboração de suas atividades, o professor terá grande chance de estabelecer um processo de ensino-aprendizagem que trará sucesso e atingirá as metas propostas.

Referências bibliográficas

1) EHRET, Arno. et al. Manual de handebol: treinamento de base para crianças e adolescentes. São Paulo: phorte, 2002.

2) GUERRA, João Bosco de Castro. Os jogos motores e os fundamentos técnicos e táticos do handebol. Natal, UFRN, 31 out. 2003. Registro de aula da disciplina Handebol I. Aula concedida aos alunos do período 2003.2

Allan José Silva da Costa



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