terça-feira, 27 de novembro de 2012

Salto vertical em voleibolistas após treinamento de agachamento e treinamento pliométrico




A história do voleibol surgiu somente em 1895 quando William Morgan começou a desenvolver a prática, porém a primeira confirmação de que o voleibol havia se tornado um esporte de competição só aconteceu em 1922. A partir deste momento, o voleibol começou a se popularizar pelo mundo e é hoje um dos esportes mais praticados no Brasil. A procura pelo esporte e a participação dos pré-adolescentes e adolescentes, traz cada vez mais consequências diretas à formação de futuras gerações de atletas (BORSARI, 2001).

    O voleibol pode ser considerado uma das modalidades esportivas mais complexas, pois exige perfeição na execução das habilidades e características físicas específicas, que quando associadas proporcionarão o melhor desempenho (SILVA, BÖHME e UEZU, 2003). O jogador deve apresentar fundamentalmente qualidades físicas como a potência, velocidade (de reação e deslocamento) e agilidade.

    Hoje a preparação física para tornar-se um atleta de esportes de rendimento, torna-se imprescindível e depende do treinamento em longo prazo, aos quais os jovens atletas são submetidos a executar de forma planejada e sistemática. O treinamento em longo prazo tem papel importante no processo de detecção, seleção e promoção do talento esportivo (SILVA, BÖHME e UEZU, 2003).

A força explosiva é justificada como sendo uma variável que se manifesta nas ações e intensidades máximas desse esporte (HESPANHOL, NETO e ARRUDA, 2006). O salto vertical ocorre em diferentes modalidades desportivas, em vista dessa importância, explicar as variáveis que determinam a performance neste gesto é fundamental para que os métodos de treinamento sejam aplicados a fim de maximizar a performance. (SILVA, MAGALHÃES e GARCIA, 2005).

    O exercício de agachamento, por ser completo e complexo, promove aumento do recrutamento de fibras musculares, e pode ser prescrito para trabalho de força, que posteriormente pode se transformar em potência muscular, oportunizando assim melhora do salto vertical do atleta. Para Hirata e Duarte (2006) entender como funciona a força compressiva patelofemoral durante o movimento do agachamento é de suma importância para fisioterapeutas e professores de educação física para orientar, limitar o movimento e saber qual deles será empregado na prescrição.

    Para Moura e Moura (2001) pliométria são exercícios definidos como aqueles que ativam o ciclo excêntrico-concêntrico do músculo esquelético, provocando sua potenciação elástica, mecânica e reflexa. Neste ciclo acumula-se energia elástica no músculo, sendo utilizado na fase concêntrica do movimento. Os exercícios de pliométria são geralmente associados a saltos de profundidade e podem ser divididos em: saltos no lugar, saltos em progressão, saltos em profundidade e exercícios para os membros superiores.

    Diante deste contexto, este trabalho teve como objetivo, utilizando-se de duas metodologias de treinamento: agachamento e pliométrico, verificar após oito semanas qual foi à diferença encontrada no salto vertical dos atletas.

Metodologia

    Trata-se de um estudo experimental do tipo ensaio clínico randomizado, onde a população foi composta por 32 atletas de voleibol com idade entre 10 e 13 anos, praticantes a mais de um ano da modalidade, que não tiveram contato com nenhum trabalho de preparação física e exercícios pliométricos antecedendo seis meses ao estudo.

    Após a explicação do estudo aos participantes, os atletas foram submetidos aos testes de variáveis de caracterização de amostra. Para a verificação da estatura foi utilizado uma trena métrica da marca Starret Tru-Lok de 3 metros, com marcação em cm e precisão de 1 mm, obedecendo à padronização do PROESP-BR (GAYA, 2009).

    Para massa corporal total (MCT), foi utilizada uma balança da marca Filizola, com sensibilidade de 0,1 Kg, sendo os valores registrados em quilogramas (Kg) obedecendo à padronização do PROESP-BR (GAYA, 2009).

    Para a composição corporal foi medida dupla-dobra de gordura subcutânea utilizando um plicômetro científico da marca Cescorf® e trena antropométrica de fibra de vidro simples com 1,5 metros da marca Fisiomed Brasil. O protocolo utilizado para cálculo da densidade corporal foi de Jackson & Pollock, 1978, que utiliza dobras cutâneas da coxa, tórax e abdômen e circunferência da cintura e do antebraço. Para o cálculo do percentual de gordura corporal, foi utilizada a fórmula de SIRI, 1961 apud HERWARD, 2004.

    Para a avaliação maturacional foram utilizadas as fotos relativas às "Pranchas de Tanner" onde os mesmos indicavam por si só o estágio maturacional com o qual mais se identificavam. Assim as crianças eram classificadas em I: indica um estado de pré-adolescência; II: indica o início do período pubertário; III e IV: indicam a continuidade do desenvolvimento, ou uma fase intermediária; V: indica a fase final do desenvolvimento, muito parecida com o estado adulto (MARTIN e Colaboradores, 2001).

    Foi realizado também o teste de impulsão que serviu para verificar o alcance máximo que o atleta atingiu. Foi medido em centímetros, sendo que o alcance máximo foi determinado pelo valor do alcance parado menos a medida do melhor salto. Para sua realização, foi anexada uma trena métrica da marca Tru-Lok de três metros com marcação em centímetros e precisão em milímetros, numa parede de 3,5 metros. Giz em pó foi utilizado para marcar o local de impulsão máxima (Bompa 2004).

    Após o teste de impulsão vertical, os atletas foram divididos por alocação aleatória, nos grupos controle, treinamento com agachamento e treinamento pliométrico onde realizarão 16 semanas de treinamentos.

    Os atletas do grupo experimental que realizaram os treinamentos com agachamento e pliométrico foram orientados na mesma semana a executarem três sessões de treinamento, sendo duas sessões para aperfeiçoamento da técnica de execução do agachamento e dos exercícios pliométricos. Na terceira sessão da semana, os atletas do grupo experimental agachamento, realizaram o teste de repetições máximas, seguindo o protocolo descrito por Fleck and Kraemer (2006), que utilizou para estimativa de uma contração voluntária máxima (CVM), os índices propostos por Lombardi (1989), seguindo após o treinamento de acordo com a periodização das tabelas 1 e 2.

Tabela 1. Treinamento contra-resistência do grupo experimental agachamento

 

Tabela 2. Treinamento do grupo experimental pliometria

    Quanto aos aspectos éticos, o projeto foi aprovado pelo CEP FUCS com número de cadastro 194/09. Todos os pais ou responsáveis assinaram o TCLE e todas as crianças aceitaram participar voluntariamente do estudo.

Procedimentos estatísticos

    Para a análise dos dados foi utilizada estatística descritiva (apresentação de médias e percentuais) e o teste "t" Student para amostras pareadas e para amostras independentes. O nível de significância adotado para o presente estudo foi de 95%.

Resultados

    A amostra iniciou com 32 atletas. Quatro atletas desistiram dos treinamentos, quatro não participaram com frequência mínima de 80% dos treinamentos e dois atletas lesionaram-se antes do pós teste de impulsão vertical. Deste modo, os 22 atletas restantes ficaram divididos em três grupos: 8 atletas no grupo controle, 7 atletas no grupo agachamento e 7 atletas no grupo pliométrico. Os atletas que participaram da amostra tinham em média um ano e nove meses de prática num clube de voleibol em Bento Gonçalves. Segundo Cole e Colaboradores (2000) a média de IMC dos atletas foi classificada como peso adequado para sexo e idade. A tabela 3 apresenta a estatística descritiva (média e desvio padrão), referente aos dados de caracterização da amostra.

Tabela 3. Caracterização da amostra avaliada

    Na tabela 4 são apresentados os dados de avaliação maturacional que foram coletados a partir da utilização das fotos relativas às "Pranchas de Tanner".

Tabela 4. Avaliação maturacional. Classificação apontada pelos atletas

    Na tabela 5 são apresentados os valores médios dos relatos de impulsão pré e pós treinamentos, o n amostral de cada grupo e o desvio padrão. Mesmo havendo valores maiores no relato de impulsão pós teste, não foram constatadas diferenças significativas (p > 0,05) nos grupos controle, agachamento e pliometria.

Tabela 5. Média do teste de impulsão pré e pós treinamentos

    Como vimos de acordo com a tabela 6 não foram encontradas diferenças significativas (p > 0,05) entre os três grupos da amostra para as medidas de impulsão vertical pré e pós teste.

Tabela 6. Teste T para amostras independentes

Discussão

    Os resultados encontrados no presente estudo não apresentaram diferença significativa no salto vertical após 8 semanas de treinamento nos três grupos estudados. Tais resultados apresentam contradição com a maioria dos estudos apresentados na literatura.

    No presente estudo, o grupo pliometria teve uma pequena melhora no pós-teste de impulsão vertical, porém esta não foi estatisticamente significativa. Jaschke e Navarro (2008) apontam resultados positivos em diversos estudos realizados nas diferentes modalidades esportivas, mostrando que os exercícios pliométricos poderiam favorecer as condições físicas de atletas. Almeida e Rogatto (2007) realizaram um treinamento pliométrico em jogadoras de futsal durante quatro semanas e este mostrou melhora da impulsão horizontal e agilidade, mas não se modificou na impulsão vertical e velocidade de deslocamento. Silva e Colaboradores (2004) em um estudo com jogadoras de voleibol de alto nível concluíram que o tipo de periodização adotado manteve o desempenho no salto vertical. Garcia, Herrero e De Paz (2005) utilizaram um programa de treinamento pliométrico de quatro semanas em 9 estudantes (de educação física) e 8 alunos no grupo controle para analisar as adaptações induzidas pelo treinamento pliométrico. Os autores verificaram que houve melhora no grupo do treinamento, porém não foram significantes. Francelino e Passarinho (2007) verificaram melhora significativa (p<0,05) nos indicadores de impulsão vertical em uma equipe de voleibol escolar (meninas de 15 anos) após oito semanas de treinamento com um programa de pliométria. No grupo pliometria, dois participantes mantiveram as médias e dois diminuíram as médias no re-teste, influenciando no resultado de significância da melhora do grupo.

    O grupo agachamento também não apresentou diferenças significativas no salto vertical nos pré e pós-testes. Com relação ao treinamento com pesos, Marques e Badillo e Marques (2005) realizaram um treinamento de força com pesos livres em atletas de basquete com idade de 10 a 13 anos e constataram melhoria da capacidade de salto vertical sem haver necessidade de realização de um trabalho pliométrico. Outro estudo que classificava o treinamento de força como importante meio para compensação muscular e aquisição de força específica de saltos foi aplicado a 10 jovens de 14 a 17 anos durante oito semanas. Os autores constataram que houve aumento na altura do salto vertical e na impulsão, sendo que os mesmos valores não foram encontrados quando relacionados com salto horizontal (FARIA, 2004). Na pesquisa realizada por Lamas e Colaboradores (2007) quarenta sujeitos com média de idade de 24 anos foram divididos em 3 grupos (controle, treino de força e treino de potência) e realizaram durante 8 semanas exercícios de agachamento. O estudo chegou à conclusão de que o treinamento de força e potência produziu ganhos musculares semelhantes. Kyröläinen e Colaboradores (2005) reportaram aumento na força dinâmica máxima utilizando trabalho de potência e com saltos após oito semanas de treinamento. As diferenças entre os estudos citados acima e o presente estudo podem ser em parte explicadas, pelas metodologias diferenciadas de treinamento de força e o tempo de treinamento. Também cabe ressaltar, que no presente estudo, o grupo agachamento obteve melhora em cinco participantes e decréscimo em outros dois, fato que pode ter contribuído para não aumentar de forma significativa a média do grupo.

    Com relação ao grupo controle, os resultados do re-teste de impulsão vertical se mantiveram iguais devido a um participante ter elevado seu pós teste em 7 cm, fato que contribuiu para a manutenção da média do grupo. Os demais sujeitos do grupo controle mantiveram as médias ou diminuíram.

    Os resultados do presente estudo precisam ser interpretados com cautela, visto que o mesmo apresentou algumas limitações. Pode-se apontar primeiramente o número reduzido de participantes em cada grupo. Outra limitação foi o fato de não haver aumento no percentual de carga máxima no treinamento após a terceira semana no grupo agachamento. Foi aumentando somente o número de séries e diminuído o número de repetições, essa mesma situação ocorreu no grupo pliométrico onde a altura do caixote permaneceu constante.

Conclusão

    Considerando as limitações do estudo, pode-se dizer que na investigação em questão não houve diferença significativa (p>0,05) entres os grupos controle, agachamento e pliométrico na impulsão vertical pós teste, mas houve melhoras nos grupos agachamento e pliométrico (não significativas). Sugerem-se novos estudos com amostras maiores para melhor avaliar a relação entre os treinamentos de agachamento e pliométrico com a impulsão vertical em atletas de voleibol, visando sempre à busca por parâmetros que forneçam subsídios para o controle e aperfeiçoamento do treinamento de voleibol. Sugere-se também que seja avaliado um novo grupo com os treinamentos de agachamento e pliometria.

Referências bibliográficas

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