quinta-feira, 21 de março de 2013

11:42:00

Lesões esportivas como conceito do treinamento atlético

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O leitor brasileiro que queira estudar os conceitos do treinamento atlético (TA) não deve ler este livro, que se intitula exatamente conceitos do TA. Primeiramente, há a questão lingüística (o traduttore, traditore!): em português entendemos TA como o processo pelo qual se desenvolvem as potencialidades que permitem o alcance da performance de alto desempenho; já em inglês norte-americano a expressão se refere mais à formação técnica do profissional que assessora as diferentes dimensões do esporte, enquanto fenômeno de expressão social e cultural. Ora, neste texto, com efeito, o tema que aqui se trata são as lesões desportivas (LD) em múltiplos componentes básicos, sobretudo clínicos, epidemiológicos, preventivos, profissionais e legais. Embora possa não parecer à primeira vista, a explicação para esse aparente paradoxo é a um só tempo simples e simbólica: é que se tomam os mencionados elementos como a própria identidade do TA adequado!

Planos de aulas para vários esportes 

Estruturalmente, o plano de redação do livro está baseado em 20 capítulos e oito anexos. Daqueles, os oito iniciais dedicam-se a rever conceitos gerais sobre abordagens clássicas das LD, agregando-se às já citadas anteriormente, a nutricional, a emergencial, a médica, a fisiopatológica e a reabilitacional. Quanto às noções especificamente nosográficas, objeto dos subseqüentes, as LD são seqüenciadas em disposição topográfica, como, de resto, na maioria das iniciativas congêneres, deslocando-se pelos agravos dos segmentos superiores para os inferiores. No interior de cada um deles, os traumatismos decorrentes da prática desportiva são efetivamente tratados, a partir de respectivos substratos anatômicos e amplamente ilustrados por cifras de prevalência e incidência da prática norte-americana de diferentes modalidades, num nível de complexidade bastante satisfatório: não há detalhes minudicentes dos especialistas e nem o receio de encarar situações eventualmente assustadoras ao absolutamente jejuno.

À guisa de exemplo, assim é que nos reencontramos com a síndrome do segundo impacto, no trecho que trata das LD à cabeça, pescoço e face, correspondendo ao quadro decorrente de nova contusão antes da resolução completa de uma concussão cerebral. Da mesma forma, no referente aos acometimentos da coluna, situam-se a espondilólise e seu agravamento, e a espondilolistese, devidamente manejadas.

Na região do ombro, pontuam-se as fraturas de clavícula e das articulações gleno-umeral e esterno-clavicular, além de entorses e contusões locais, com seus determinantes, manifestações e decorrências. Em relação ao braço, punho e mão, condições sobejamente conhecidas, como a epicondilite lateral ("do cotovelo de tenista"), coexistem com problemas singulares, como a doença de D'Quervain, a tenosinovite que atinge os tendões do extensor breve e do abdutor longo do polegar na altura do processo estilóide do rádio, em decorrência ao uso excessivo e não orientado. Na bacia e pelve são lembradas distintamente a osteíte pubiana, processo degenerativo crônico também resultante de over use, a dolorida e perigosa contusão testicular e as hérnias, mais freqüentes nos homens e mais femurais nas mulheres. Controvérsias igualmente são trazidas, como a adoção de joelheiras, equipamentos de proteção individual, que, segundo algumas fontes citadas, reduziriam a frequência de LD, segundo outros, não; outros ainda não dizem que sim nem que não; na dúvida, porém, muitos os preconizam: não é nosso caso, posto que advogamos o uso de equipamentos de proteção coletiva.

Outros agravos desportivos de interesse são tratados a seguir, como as principais afecções cardiopulmonares, vésico-uretrais e gastrodigestivas. As moléstias dermatológicas merecem abordagem própria, assim como as decorrentes às alterações de temperatura (cãimbras, exaustão e ataque térmico – heatstroke -, hipotermia e congelamento), as doenças infecciosas mais pertinentes, diabetes, epilepsia, além de algumas especificidades do período da adolescência, como peculiaridades ligamentares, crescimento cartilagíneo, diagnósticos diferenciais e efeitos do treinamento de força.

Há apêndices com matérias interessantes e úteis, como protocolo muito adequado de ressuscitação cardiopulmonar (mais muito mesmo!) e outro sobre contaminação sangüínea nos esportes, listagem de itens para caixa de socorros e material para aplicação de equipamentos, além de glossário e índice remissivo.

Globalmente visto, o texto apresenta inúmeros outros aspectos bastante sensíveis, principalmente a abordagem e a linguagem acessíveis: abrange variado espectro de leitores composto por treinadores, professores de educação física envolvidos com oportunidades aplicadas de exercício profissional, alunos de graduação, especialistas em formação, candidatos a ingresso a cursos de titulação acadêmica e até mesmo mestrandos e doutorandos aos quais seja desejável suplantar lacunas em áreas conexas de seus interesses específicos.

As idéias fundamentais são introduzidas a partir de conceituações norte-americanas institucionais respeitáveis, como da Associação Nacional de Treinadores Atléticos (Nata), Associação Atlética Nacional Colegiada (NCAA), Sistema Nacional de Vigilância de Lesões (ISS), Pesquisa Nacional de Lesões na Escola Secundária, Comitê de Aspectos Médicos do Esporte, Associação Médica Americana (AMA), Nomenclatura Padrão de Lesões Atléticas (SNAI) e Conselho Nacional de Segurança (NSC), entre muitas outras. Devidamente submetidas à remissão nas respectivas referências bibliográficas, tais obras testemunham o tratamento atribuído no âmbito normativo federal dos Estados Unidos, contrariamente ao que ocorre entre nós.

Neste contexto, os dados estatístico-sanitários explicitados são profusos e aparentemente confiáveis: ambos os autores, docentes de Departamento de Ciensiologia em duas universidades daquele país, expressam, nas partes iniciais, paradigmas básicos e apreciações críticas convincentes do repertório epidemiológico, versando acerca de fatores de risco e delineamentos observacionais, principalmente retrospectivos (i.e., ensaios do tipo caso-controle). E, realmente, são reveladoras as menções de que, na realidade nacional indicada, "apesar das alterações de regras, supervisão adequada e treinamento aprimorado, especialistas relatam que 3% a 11% de todas as crianças sofrem anualmente algum tipo de LD". Como dimensionar tais achados em relação ao que ocorre em nosso meio: nossos escolares são menos violentos e se lesam menos, ou mais ativos e se vitimam mais? O concreto é que nem sequer dispomos de tais informações, para poder, ao mínimo, comparar realidades!

Característica peculiar detectável é a preocupação formal elaborada em relação a recursos para aprendizagem, amplamente adotados em cada capítulo. Na correspondente folha de rosto há resumo orientador, não só indicativo mas descritivo e com algumas pistas analíticas, bastante informativo: aí também figura(m) o(s) endereço(s) da(s) mais relevante(s) organização(ões) relacionada(s) ao tema em pauta. Boxes, estrategicamente alocados ao longo do texto, I) propõem situações-problemas para consideração, do tipo "que orientações fornecer em caso de "; II) recuperam nominatas de diretrizes operacionais para situações prioritárias; III) reproduzem declarações de relevância da área sobre conteúdos tratados; IV) expõem figuras e quadros bastante ilustrativos; e V) indicam itens de revisão para fixação e discussão.

Procedimento nesse sentido que importa destacar consiste na clareza, pragmatismo e diretividade empregadas em trechos que implicam condutas a serem tomadas ou intervenções a serem executadas, como é o caso do exame preventivo periódico e demais ações profiláticas para o controle dos fatores extrínsecos das LD (capítulo 4). De fato, em circunstâncias desse tipo, são trazidas possibilidades que permitem, ao leitor dedicado, aquisição de razoável automatismo na execução das medidas preconizadas pelos respectivos protocolos.

Talvez neste agir resida uma das limitações do que aqui se aprecia: o excesso de didatismo, na medida em que, muito freqüentemente, uma única conotação é repetida tantas vezes em determinado segmento que a leitura pode resvalar para o movediço terreno do desinteresse.

Mais que isso: riscos maiores há, como o de superficialismo. Ao tratar do que pretensamente é chamado de "psicologia do esporte", a centralidade do interesse está situada, a julgar pela proporcionalidade de páginas dedicadas ao tema (mais da metade!), no trato das desordens da nutrição, especificamente a bulimia e a anorexia.

Evidentemente nenhum profissional que lida com a matéria pode ignorar tais manifestações. Importa, porém, conhecer fatos mais substantivos da área que inclusive as explicam, como o turbilhão de emoções contraditórias e conflitivas que afloram tão intensamente e amiúde em diferentes momentos e para distintos protagonistas do fenômeno desportivo, ou até outros, mais dirigidamente, como o medo de fracasso e a expectativa de sucesso, por constituírem a base de constructos que podem se investir em instrumentos esclarecedores para entendimento do significado psicossocial das múltiplas faces e manifestações da atividade física competitiva contemporânea.

Questões como essas, ou até a presença de viés de enfoque funcionalista dos autores saxônicos tão legitimamente aversivo a estudantes e estudiosos estruturalistas brasileiros, precisam ser mantidas em linha de perspectiva. Não obstante, nesta fonte muitos de nós temos o que exaurir, sendo mesmo procedente a cogitação de sua eventual tradução ao português para que se amplie a potencial abrangência de seus usuários.

Autores: Aguinaldo Gonçalves; Glauca G. Mantellini - Campinas - SP

terça-feira, 12 de março de 2013

08:43:00

A saúde dos atletas de alto-rendimento e os mega-eventos esportivos


Introdução

    A problematização dos efeitos do condicionante esporte no processo saúde-doença do povo brasileiro surge no século 21 como tarefa de suma importância para melhoria do padrão de saúde da população e especialmente para o combate do ideário capitalista que ao longo dos anos tem transformado o esporte em mercadoria para obtenção de riqueza e instrumento de alienação.

    Segundo, Edgard Matiello Júnior, Paulo Capela e Jaime Breilh (2010):

    Apesar de haver uma imagem ideal na qual o esporte é sinônimo de saúde, a relação entre ambos é um processo socialmente determinado, cujas características dependem das correlações de poder que operam em uma determinada formação social.

    Portanto, embora as práticas do esporte e os seus espetáculos sejam considerados bons recursos de desenvolvimento humano, sob condições históricas e modos de vida típicos de certas classes e grupos sociais, essas atividades podem perder o caráter protetor da saúde e se tornar práticas destrutivas.

    Esse caráter surpreendente e contraditório do esporte regido pela lógica capitalista se manifesta de diversas formas. A mais dramática é a tensão crônica que acarreta lesões permanentes em desportistas de elite induzidos à competição extrema. Tal processo deteriora o fenótipo do atleta, afetando seus sistemas físicos, como o osteomuscular e sua saúde mental. (MATIELLO, E.J; CAPELA. P; BREILH. J, 2010, Pág, 16 e 17).

    Entretanto antes de abordamos mais detidamente estes aspectos pensamos ser importante para continuidade da discussão a apresentação dos conceitos atribuídos aos termos: processo saúde-doença e atleta de alto-rendimento. Termos que expressão um conjunto de formulações anteriores que se apresentam divergentes ou complementares entre si. Que foram desenvolvidas em um movimento de negação e superação do já existente.

    Em nosso caso estes conceitos, bem como o conjunto das formulações que aqui são apresentadas dizem respeito a proposições desenvolvidas no interior da LEPEL – Linha de Estudos e Pesquisas em Educação Física, Esporte e Lazer – UEFS, orientadas por estudos e pesquisas de três grandes campos: a Epidemiologia Social, a Medicina Social, e os estudos de pesquisadores da área da Educação Física que se propõe a superação da lógica linear que caracteriza Atividade Física enquanto sinônimo de saúde.

    Assim, homem é conceituado como ser histórico que define sua essência através das relações com o trabalho, com a vida social, ou seja, com as relações que estabelece com outros indivíduos ao transformar a natureza. (EGRY, 1996). Que, portanto abrange elementos biológicos, e históricos sociais.

    Já processo saúde/doença é concebido como processo histórico e dinâmico orientado pela forma como cada indivíduo se insere no modo de produção, na estrutura social de classes sociais. (EGRY, 1996). Ou seja, na dinâmica atual de modo de produção capitalista, caracterizada centralmente pela divisão social entre classes, determinada pela propriedade privada dos meios de produção.

    Meio de produção que englobam desde matérias primas, maquina e equipamentos, a instalações e força de trabalho.

    Sendo a saúde resultado do lugar em que o individuo ocupa na luta de classes e que lhe dá acesso ou não a moradia, saneamento básico, transporte de qualidade, lazer, serviços de saúde, etc.

Os atletas de alto-rendimento

    Uma vez que a determinadas práticas corporais foram atribuídas os princípios da sobrepujança do outro, máxima técnica, competitividade, especialização – caracterizando-as enquanto esporte moderno. No cotidiano, sobre orientação do senso-comum os atletas de alto-rendimento são considerados o que há de 'melhor' no desenvolvimento de determinadas práticas corporais. Ou seja, indivíduos que apresentam um potencial físico que envolve: capacidade de reação e coordenação, bom tônus muscular, boa capacidade de movimentação, resistência articular para superar as altas cargas de treinamento, possibilidade de desenvolvimento de uma boa capacidade cardio-respiratória, resistência a resíduos metabólicos e agentes externos.

    Entretanto ao fazermos uma análise mais detida, aprofundando nossas lentes frente ao objeto, poderemos observar que a existência dessas potencialidades nos individuos é reflexo de diversos fatores. Determinações que em última instância são induzidas pela condição de classe e modo cultural de vida, e pelas práticas de estilo de vida pessoais determinadas pelo grupo social pertencente. (MATIELLO, E.J; CAPELA. P; BREILH. J, 2010, pág. 19). E que assumem centralidade quando analisado a partir da relação com o processo saúde/doença.

    No modo de produção capitalista os atletas têm sua força de trabalho utilizada na produção da riqueza de terceiros. Não fosse o próprio caráter exploratório em que estão submetidos, ainda impera uma injusta estrutura de trabalho que atinge a maioria destes trabalhadores.

    [...] os desportistas com melhor desempenho, que compõem tal força de trabalho, e que são em última instância o imã do espetáculo desportivo, fazem parte de uma estrutura de trabalho altamente injusta, na qual o exultante sucesso econômico de uma elite minoritária mascara a situação de trabalho desfavorável da vasta maioria dos desportistas. Uma lacuna social, conforme demonstrado pela estratificação de classe de jogadores de futebol brasileiros. (MATIELLO, E.J; CAPELA. P; BREILH. J, 2010, Pág., 23).

    Ao contrário do que se imagina 86,4 % dos jogadores de futebol no Brasil recebem menos de dois salários mínimos. Conforme pode ser observado no quadro abaixo:

Renda mensal (dólares americanos)

%

até 75

44,9

75 a 150

41.6

150 a 375

5,0

375 a 750

2,8

750 a 1.500

1,5

mais que 1.500

3,3% (402 jogadores)

Quadro: Estratificação de renda mensal de jogadores de futebol brasileiros (800 clubes com 12.000 jogadores).

Fonte: Altuve (2002, p. 104 MATIELLO, E.J; CAPELA. P; BREILH. J, 2010, p.24).

    Ao produzir a riqueza dos empresários esportivos, dos administradores dos clubes esportivos e patrocinadores, os atletas despendem de força humana no sentido fisiológico e desgastam naturalmente a própria força de trabalho.

    Esse desgaste da força vital pode ser exemplificado quando realizamos uma pratica corporal e provocamos determinado gasto calórico, desgaste de músculos, nervos e articulações.

    Mas será mesmo natural o desgaste sofrido pelos atletas de alto-rendimento?

    Diante do grau de competitividade nos esportes de alto-rendimento, de máximo rendimento e de desenvolvimento das valências físicas orientada por uma busca desenfreada pelo estabelecimento de novos recordes, podemos dizer que o desgaste físico no esporte de rendimento não só, não é natural como é degradante. Se configurando, portanto como um perfil destrutivo no processo saúde/doença.

    As condições em que são submetidos os atletas de auto-rendimento chocariam qualquer ser humano não fosse o fetiche, a nuvem de encantamento colocada pela mídia de massa diante destas práticas. Não fosse a exacerbação e naturalização da competitividade estimulada pela ordem capitalista no cotidiano humano. E se a rotina de sofrimento e de desgaste físico dos atletas não fosse escondida a sete chaves.

    Distúrbios psicológicos, dores físicas diversas, redução drástica da defesa imunológica, terapêuticas cirúrgicas e medicamentosas são cenas corriqueiras ao dia-dia dos atletas.

    Outro elemento complicador é que quando do encerramento da carreira estes atletas continuam tendo que conviver com a maioria desses danos a saúde, além dos que são originários pela interrupção de sua prática (sobrepeso e obesidade devido a não ocorrência de destreinamento; distúrbios psicológicos e agravos provocados pelo alcoolismo e ou uso de outras drogas, provocados pela falta de preparo para lidar com o fim da fama e da gramou que os envolvia).

    Todos esses eventos ocorrem em meio a um intenso desenvolvimento tecnológico, a um altíssimo investimento financeiro e em um grau extremamente 'sofisticado' de pesquisas de capacitação profissional.

    Elementos que apesar do grau de cientificidade que possuem são insuficientes para eliminar os danos provocados à saúde desses individuos.

    Isso se deve em alguma medida ao fato do saber cientifico que envolve a área da Atividade Física e Saúde ao se orientar na noção de risco favorecer para que o atleta, mesmo tendo conhecimento dos prejuízos de determinados aspectos da vida esportiva, continuem a executá-los.

    Assim como o fumante que mesmo tendo conhecimento claro dos prejuízos provocados pelo fumo a sua saúde opta por continuar a fumar. Uma vez que a noção de risco atribuída ao fumante se propõe a mera orientação. Não contribuindo para eliminação dos elementos biológicos da dependência química e muito menos para eliminação dos elementos concretos que causam resistência ao abandono do ato de fumar. Que muitas vezes envolve problemas econômicos, estresse dentro outros fatores. A noção de risco no esporte de rendimento não perspectiva a superação dos determinantes ideológicos sociais e econômicos que envolvem e condicionam a ocorrência desses perfis destrutivos à saúde de seus praticantes.

    Segundo Matiello et al 2008,

    Desta forma, se desnuda a identidade do risco como carregada, ao mesmo tempo, de objetividade e subjetividade, sendo que o atributo da dúvida joga com o imaginário, a necessidade, o medo e o prazer do desafio. Portanto, poderíamos considerar até mesmo que o anúncio do risco carrega consigo potencial de ampliação da ocorrência dos danos à saúde, pois há os que queiram (e os que precisam por condições de sobrevivência!) desafiar seus limites; em outra situação, pensar que algo sempre está por vir assume feições de irrealidade, pois é tangível, alcançável. Ora, se o cálculo de riso é feito com dados da vida de outros, pode-se pensar que "isso não irá acontecer comigo", mesmo que todas as evidências reforcem o contrário. Constatação que vale inclusive para os trabalhadores do esporte (atletas), em suas tentativas permanentes de superar seus próprios limites. (MATIELLO JÚNIOR. GONÇALVES. A; MARTINEZ. J. 2008, pág. – 7 e 8).

    Permanecendo dessa forma nos limites da superficial orientação e da culpabilização dos indivíduos.

    Em superação a noção de risco, defendemos a incorporação do conceito de processo apresentado pelo epidemiologista equatoriano Jaime Breill, que entende que o processo saúde/doença é mediado por fatores positivos e fatores destrutivos à saúde. E que devemos levar em consideração para além desses fatores os determinantes grupais e individuais que envolvem o processo saúde/doença.

    Na figura abaixo ao autor apresenta modelo explicativo:

    Ainda segundo Matiello et al 2008:

    A discussão de Breilh (1997) avança na seguinte direção: I) existem efetivamente riscos nos centros laborais, mas eles não cobrem a totalidade dos processos determinantes, ii) a organização e divisão do trabalho não se explica adequadamente pelo conceito de risco porque se constitui processo determinante de caráter necessário e permanente e não em simples perigo contingente ou provável; iii) o conceito dificilmente pode dar conta do caráter

    contraditório do trabalho; iv) o uso da palavra risco no contexto convencional está fortemente associado à noção restrita e estática dos fenômenos nocivos das atividades laborais. (MATIELLO JÚNIOR. GONÇALVES. A; MARTINEZ. J. 2008, pág., 10).

    Diante do exposto e título de exemplificação podemos considerar a falta de saneamento que atinge 20% da população brasileira, ou os 57 % da população que não acesso a esgoto sem sobra de dúvidas como dois grandes fatores destrutivos a saúde da população.

    Por outro lado uma boa qualidade alimentar acesso a serviços de saúde, educação e lazer devem ser considerados como fatores positivos a saúde.

    Nesse sentido, fica evidente que o esporte de rendimento se apresenta como um fator destrutivo a saúde. Entretanto vamos nos deter e aprofundar mais um pouco a questão a fim de desvendar outros determinantes que envolvem a condição de vida e saúde desses trabalhadores.

    Quadro do perfil generalizado dos determinantes de saúde/doença dos atletas de rendimento.

Estrutura politico-ideológica

Baseada no senso-comum, na perspectiva liberal.

Mediadores grupais

 

Classe social

 

 

Compõem geralmente a pequena burguesia

 

Gênero

 

Composto por homens e mulheres. 

Sendo a grande maioria do sexo masculino

Etnia

 

Diversa

Geração

 

Composta geralmente por jovens

Mediadores Singulares

Genótipo

Fenótipo

Diante do alto grau de seletividade desse tipo de atleta dificilmente apresentam problemas nos mediadores singulares

    Dessa forma, acreditamos que apesar de apresentar determinantes individuais e grupais favoráveis, os demais determinantes destrutivos que envolvem o alto-rendimento superariam os fatores positivos.

    Os atletas de alto-rendimento apesar de terem em sua amplitude acesso a boa alimentação, boa moradia, educação de qualidade, acesso a serviços de saúde com tratamento especializado, a atividade de lazer e uma boa posição econômica, os fatores destrutivos acabam superando o conjunto dos fatores protetores, provocando um estado de saúde/doença não desejado.

Esporte de alto nível e investimento social

    È comum ouvirmos reclamações no meio esportivo de falta de investimento no esporte. Sempre próximo de mega-eventos esportivos lemos ou ouvimos matérias jornalísticas atribuírem em boa medida os baixos resultados brasileiros a falta de investimento no setor.

    O fato é que o governo brasileiro tem investido nos últimos anos muito mais recursos no esporte de rendimento do que na socialização do esporte. Mesmos os investimentos feitos no esporte escolar e no esporte e lazer tem por objetivo a preparação de atletas.

    Parece-nos obvio que alguns setores esportivos se tivessem maiores investimentos conseguiriam melhores resultados em suas competições. Entretanto experiências de popularização dos esportes em diversas nações nos demonstram que outra via é possível. Possibilitando-nos resultados muito mais duradouros e condizentes com a melhoria das condições de saúde da comunidade.

    O futebol no Brasil, o basquete nos EUA, o tênis de mesa no Japão, o kung-fu na China, o Xadrez em Cuba são alguns bons exemplos de que a socialização do esporte pode ser uma excelente medida inclusive com fins de supremacia nacional.

    Além dos equívocos apontados para política pública de esporte e lazer adotada pelos últimos governos que privilegia ações que incentivam a criação de atletas e a preparação para disputas internacionais, ainda temos acompanhado a aplicação de absurdos investimentos em mega-eventos esportivos.

    A justificativa para os altíssimos investimentos nesses mega-eventos esportivos é que ficaria um legado de infra-estrutura e se ampliaria a prática esportiva no país.

    Entretanto os jogos Panamericanos realizados no Brasil em 2007 nos apresentam provas claras e concretas do contrário. Neste episódio podemos observar: ataques as populações locais na tentativa de esconder as gritantes desigualdades sociais da cidade; falta de prestação de contas de mais de 1 milhão de reais, entrega de diversas construções realizadas com dinheiro público para mão de iniciativa privadas. Um bom exemplo é a do Estádio Olímpico João Havelange (Engenhão) orçado inicialmente em R$ 100 milhões tendo um custo total bem acima do valor orçado. Custando aos cofres públicos cerca de 300 milhões e entregue ao Clube de Regatas Botafogo por R$ 40 mil mensais mais custos de manutenção.

    Os gastos gerais com o evento estavam previstos em R$ 532 milhões e chegaram a R$ 3 bilhões.

    Além desses elementos, a maioria das construções não significaram qualquer possibilidade de vivência da prática esportiva por parte da população. Na maioria dos casos a população que através dos seus impostos financia tais construções, apenas tem acesso a praticas desses esportes enquanto expectadores. E a maioria das vezes através da impressa televisiva.

    Segundo Matiello Júnior, Capela e Breilh (2010) a quantia gasta no PAN do Rio daria para construir mais de 15 mil estruturas esportivas de qualidade e diversificadas no país, o que poderia significar a construções de três novos espaços para práticas esportivas em cada cidade.

    Cálculos preliminares da CBF apontam que o governo deve gastar cerca de R$ 11 bilhões para se preparar para a copa de 2014. Já o projeto dos jogos olímpicos de 2016 está estimado em R$ 25,9 bilhões.

    Segundo plano de gasto alternativo elaborado pelo movimento planeta sustentável com base em órgãos governamentais, só o recurso da copa de 2014 daria para se investir:

R$ 2,1 bi

  • ONDE Expansão do saneamento.

  • PARA Levar água tratada a 2,2 milhões de casas e coleta de lixo a 2,1 milhões - cerca de 20% do déficit de saneamento.

R$ 2,8 bi

  • ONDE Crédito para casas populares.

  • PARA Financiar a construção ou compra de 480 mil casas populares - 6% do déficit habitacional.

R$ 2,8 bi

  • ONDE Universalização da eletricidade.

  • PARA Levar luz a 1,6 milhão de pessoas no campo - 13% da população sem acesso à energia.

R$ 1,4 bi

  • ONDE Combate ao analfabetismo.

  • PARA Ensinar 600 mil jovens e adultos a ler e escrever - o que representa 4% a menos de analfabetos no país.

R$ 1,4 bi

  • ONDE Bolsa Família.

  • PARA Custear o programa por um ano para 1,8 milhão de famílias, que receberiam um auxílio mensal de R$ 62.

R$ 700 mi

  • ONDE Saúde da Família.

  • PARA Levar o programa Saúde da Família a mais 2 milhões de pessoas - superaria a população de Curitiba ou Recife.

*Fontes: Orçamento Copa 2014 (conversão a partir do valor estimado em dólares), CBF, FIFA. Orçamento alternativo: números recentes dos ministérios do governo federal, IBGE, site Contas Abertas, Agência Brasil, FGV.

    Em paralelo a esses gastos absurdos, a esse derrame de dinheiro público, a maioria das escolas públicas não tem quadras esportivas, grande parcela da população tem dificuldades de acesso aos serviços de saúde, as oportunidades de lazer são extremamente reduzidas, falta moradia, saneamento básico e alimentação. Os recursos destinados à educação e saúde estão bem abaixo do necessário.

    Segundo o jornal o globo, do dia 05 de novembro de 2010, a verba das ações e serviços de saúde foi ajustada para R$ 62,9 bilhões, para 2011 o congresso prevê R$ 68 bilhões. Existe proposta de que a União destinasse 10% da receita corrente bruta para a saúde, levando a um gasto de R$ 80 bilhões, o que a equipe econômica do governo alegou ser inviável.

    Aos que utilizam os argumentos de confraternização entre os povos, de intercâmbio entre as nações, nós apresentamos outra necessidade de intercâmbio: de comida.

    Apesar da produção de alimentos ser superior a capacidade de consumo humano pesquisas nos apontam que 35,5% das famílias brasileiras viviam em situação de "insuficiência da quantidade de alimentos consumidos" em 2009 segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF 2008/2009. No Norte, mais de 50% das famílias ainda não comem o que necessitam. Apesar dos números terem diminuído milhares de pessoas ainda passam fome no país.

    Segundo dados do relatório do Índice Global de Fome - 2010, temos hoje 1 bilhão de pessoas com fome no mundo, muitas delas crianças. 25 países apresentam condições alarmantes. A república Democrática do Congo tem 75% de sua população subalimentada.

O esporte pode apresentar-se como perfil protetor a saúde?

    Muito embora a política de esporte do país nos direcione para o esporte de alto-rendimento, com significativos prejuízos a saúde da população. Mesmo com a associação linear a prática esportiva com a estética, como alternativa simplista de afastamento das drogas, de fantasiosa melhoria das condições econômicas, da imensa supremacia da competitividade, em muitos casos com graus consideráveis de violência. Pensamos ser possível o desenvolvimento de outra lógica no esporte que privilegie a classe trabalhadora, apresentando-o como perfil protetor a saúde da população.

    Entretanto, a consolidação desse modelo passa por algumas medidas:

  • Modificação das políticas públicas de esporte de maneira a privilegiar a socialização das práticas esportivas.

  • Possibilidade de escolha, de construção, desenvolvimento e de efetiva participação da população brasileira das práticas esportivas.

  • Melhor qualificação dos cursos de Educação Física no país em torno dos determinantes que envolvem o fenômeno esportivo e quanto à realidade/possibilidade de abordagem teórico/metodológica dessas práticas.

  • Construção de outra consciência social em que prevaleça a cooperação, a sociabilidade e a fraternidade em negação a competitividade, e ao individualismo nas praticas esportivas.

    Por fim queremos chamar a atenção, para a responsabilidade do professor de Educação Física frente a este projeto transformador do esporte. As contribuições da vivência da prática esportiva para uma dada população sem sobra de dúvidas abarcam a saúde, mais passam também pelo desenvolvimento psicológico, crítico e pela preservação do desenvolvimento da cultura de nosso povo.

    E da mesma forma que saúde não se dá conquista-se assim também é o esporte.

Fonte

Autor:
Alan Jonh de Jesus Costa - jonhmeef@yahoo.com.br






quinta-feira, 7 de março de 2013

09:42:00

Treinamento funcional atuando nas modalidades esportivas

Imagem relacionada

O Treinamento Funcional foi criado nos Estados Unidos, é utilizado pela seleção norte-americana de atletismo e por equipes de basquete profissional da NBA. Recentemente (2001), implantado no Brasil por algumas clínicas e academias. Por aqui, o Treinamento Funcional já é aplicado na preparação física do Corinthians, em todas as categorias. Nas categorias de base, por exemplo, houve uma redução de aproximadamente 100 lesões durante o campeonato paulista de 2006, em comparação com o torneio do ano anterior.

No hipismo esse tipo de exercício também é bastante utilizado. Os exercícios físicos baseados nos movimentos reais do hipismo, que ao invés de cavalos, são usadas grandes bolas de borracha e elásticos para que os cavaleiros tenham músculos mais preparados para suportar a intensidade dos movimentos exigidos pelo hipismo.

Tenha aulas de Treinamento Funcional 

No Judô o treinamento funcional também é muito praticado e se apresenta como reforço de uma sequência de exercícios que faz com o que os judocas exercitem muito além dos grupos musculares.

1 – Quem mais procura um treino funcional?

O treinamento funcional já é uma modalidade por sí só, e não mais apenas um alternativa. Pessoas saturadas das atividades convencionais oferecidas pelas academias, pessoas em processo de reabilitação, e também atletas de todas as modalidades esportivas.

2 – Qual é o benefício principal do treino funcional para um atleta e também para um sedentário?

Preparar o organismo (músculos, articulações, consciência corporal) para que ele "funcione' melhor em tarefas esportivas e do cotidiano.

3 – Quais músculos ou cadeias musculares são mais utilizados nesse tipo de treino?

O trabalho de propriocepção (conhecimento e consciência do próprio corpo) é muito trabalhado, principalmente através da região abdominal chamada de "core" ou "casa de força".

4 – Em quais outros esportes esse exercícios são utilizados?

Pode ser utilizado em todos!

sexta-feira, 1 de março de 2013

10:16:00

Estratégias para a reposição hídrica no futebol


Introdução

    Futebolistas profissionais percorrem de 9 a 14 km, sendo que a distância média percorrida em uma partida nacional ou internacional é de cerca 10 km. O consumo de oxigênio estimado pela freqüência cardíaca destes atletas fica em torno de 70% a 80% do VO2 máx. Os jogadores de futebol caracterizam-se por apresentam um VO2 máx. entre 56,5 e 69,2 ml.kg-1.min-1 . e, um alto limiar anaeróbio, o qual fica em torno de 80% do VO2 máx. (FLECK, KRAMER; 1999).

    Do total da distância percorrida apresentada acima, cerca de 25%, consiste em caminhadas; 38% de trote, 20% de corridas cruzadas, 7% em deslocamentos de costas e 10% em corridas em velocidade máxima individual. Em relação ao tempo de jogo, cerca de 57% dos 90 minutos, os jogadores ficam parados e/ou caminham, e, 12% do tempo executam atividades de altas intensidades perfazendo uma razão entre alta e baixa intensidade de 1:7 (FLECK; KRAMER, 1999).

    Como apresentado, o futebol caracteriza-se por esforços intermitentes que alternam atividades de altas e baixas intensidades. Durantes as partidas são realizadas cerca de 1.000 a 1.200 alterações discretas de movimento durante o jogo, tais atividades elevam o gasto energético total da atividade. Por exemplo, corridas laterais e de costas elevam o gasto energético em 20 a 40% se comparadas às corridas normais (FLECK; KRAMER, 1999).

    Os dados acima ilustram a grande exigência fisiológica imposta aos jogadores durante os treinamentos e principalmente durantes os jogos. Tais solicitações são potencializadas quando os jogadores são expostos a atividades físicas em condições ambientais extremas, como por exemplo, nas partidas realizadas em locais com temperatura e umidade relativa do ar elevadas.

    Em ambientes com uma combinação de calor excessivo e umidade, a capacidade de trabalho fica comprometida, sendo que o exercício pode ser mantido por menos tempo em decorrência do aparecimento precoce da fadiga. Mas, a preocupação mais séria é com o risco a saúde e o bem estar. Pois, caso a elevação da temperatura corporal promovida pelo estresse físico do exercício e do ambiente não seja controlada pelos mecanismos de dissipação do calor, o indivíduo pode desenvolver um quadro de hipertermia, o que pode ser fatal (MAUGHAN; SHIRREFES; LEIPER, 2003).

    O aumento da temperatura corporal que acompanha o exercício no calor pode ser atenuado pela sudorese, porém grandes perdas de suor podem resultar em hipo-hidratação e na perda de eletrólitos. Ambas condições podem levar o indivíduo a desidratação, sendo que na perda de 1 à 2% da água corporal compromete alguns aspectos da função fisiológica e uma séria incapacidade pode ocorrer se o déficit alcançar cerca de 10% da água corporal (MAUGHAN; SHIRREFES; LEIPER, 2003).

    Apesar da grande importância do controle da desidratação, segundo Kirkendall (2003), são poucas as evidências presentes na literatura relacionada ao futebol que tratam da desidratação dos jogadores. O referido autor justifica sua afirmação alegando que o número reduzido de publicações sobre tema é devido ao fato de muitas publicações sobre a modalidade serem oriundas de países localizados no norte do continente europeu, onde os efeitos maléficos do calor excessivo não são os principais problemas enfrentados pelos treinadores e cientistas da região. Mas, o próprio Kirkendall apoiando-se nas considerações elaboradas por Mustafá e Mouhmound (1979), alerta que a desidratação entre 1 a 2,5 kg é comum em climas temperados e perdas de peso entre 4 a 5 kg pode ser encontrada em situações extremas, como em jogos realizados no continente africano.

    Ainda, em relação ao estado de desidratação de jogadores de futebol, Vargas (2004) afirma que independente das condições climáticas, a reposição de líquido está sempre em 50% de déficit da quantidade perdida de líquido, sendo que este problema ocorre tanto nos treinos como nos jogos. O referido autor indica que esta "desidratação voluntária" ocorre provavelmente por causa dos maus hábitos entre os jogadores e treinadores, assim como por causa das atitudes negativas da desidratação, semelhantes às que haviam entre os corredores de maratona durante o princípio e meados do século XX. Vargas (2004) complementa dizendo que em termos de hidratação o futebol está na mesma época "pré-histórica" que estavam a maratona na década de 1950. E, que as regras do jogo, não são os principais determinantes da ingestão insuficiente de líquidos durante as partidas. Pois, pela quantidade de interrupções que se apresentam durante os jogos e treinamento era de se esperar maior ingestão de líquidos e, conseqüentemente, melhor equilíbrio hídrico durantes as competições e treinamento.

    De acordo com o explicitado acima, objetiva-se neste trabalho apresentar as estratégias para a reposição hídrica, presentes na literatura, que podem ser utilizadas no cotidiano dos treinamentos e jogos para minimizar os efeitos da desidratação de jogadores de futebol.

Estratégias para a reposição hídrica

    De acordo com Vargas (2004), a hidratação para o futebol deve seguir exatamente as mesmas regras que a prática de qualquer outra atividade física, ou seja, repor o líquido perdido pela sudorese para evitar a desidratação e oferecer carboidratos e eletrólitos que podem ser necessários.

    Para a reposição hídrica otimizada é necessário o conhecimento das demandas fisiológicas impostas pelo esporte, o estado de aclimatação do esportista, a condição física e as taxas normais de sudorese. Além disto, no futebol é preciso considerar as condições particulares de cada jogo e/ou treino, assim como conhecer as necessidades específicas de cada atleta (VARGAS, 2004).
Outro fator extremamente importante para a adequação da ingesta de líquidos pelos jogadores é a construção do hábito durante as sessões de treinamento. Pois, um jogador acostumado a não beber nada durantes os treinamentos, provavelmente não irá beber nada durante os jogos (VARGAS, 2004).

    No entanto, a fim de se reduzir os efeitos nefastos da desidratação, Marquezi e Lancha Júnior (1998) sugerem que para as atividades com duração entre 1 e 3 horas e com intensidades entre 60 a 90% do VO2 máx. o ideal é ingerir antes do exercício de 300 a 500 ml/h de água. Tal procedimento objetiva atenuar o processo da desidratação e os efeitos da hipo-hidratação durante o exercício. Já, durante a atividade, os autores acima preconizam a ingestão de uma solução com sódio (10 a 20 mEq), cloreto (10 a 20 mEq) e carboidratos (6 a 8%) em um volume de 500 a 1000 ml/h para a oferta de carboidratos, e 800 a 1600 ml/h para a reposição hídrica. A justificativa apresentada Marquezi e Lancha Júnior (1999), para a utilização da solução descrita acima, consiste em fornecer carboidratos para amenizar a depleção de glicogênio muscular que os exercícios com esta característica promovem; a presença de sódio visa otimizar a absorção intestinal de água e carboidratos, melhorando a palatabilidade e mantendo o volume extracelular; e, a presença do cloreto tem por finalidade otimizar a absorção intestinal de água.

    A utilização de uma solução contendo carboidratos e eletrólitos, como descrito acima, para a reposição das perdas hídricas ocorridas durante as partidas também é indicada por Ostojic e Majic (2002); Vargas (2004); Guerra, Chaves, Barros e Tirapegui (2004) e Martin, Lambeth e Scott (2006). Mas, vale neste momento reiterar os apontamentos realizados por Maughan, Shirrefes e Leiper (2003), estes autores apontam que a concentração de carboidrato contida na solução deve atender a finalidade específica da solução. Pois, altas concentrações de carboidratos nos líquidos ingeridos vão retardar o esvaziamento gástrico, reduzindo a quantidade de líquido disponível para a absorção; concentrações muito altas resultarão em secreção de água no intestino e, assim vão realmente aumentar o perigo de desidratação. Altas concentrações de carboidratos (>10%) também poderão resultar em distúrbios gastrintestinais. Contudo, quando houver a necessidade de suprimento de energia durante o exercício, o aumento do conteúdo de açúcar das bebidas vai aumentar a oferta de carboidratos no sítio de absorção no intestino delgado.

    Outra informação importante refere-se ao tipo de bebida ingerida. De acordo com Ostojic e Majic (2002); Maughan, Shirrefes e Leiper (2003); Vargas (2004); Guerra, Chaves, Barros e Tirapegui (2004) e Martin, Lambeth e Scott (2006) as bebidas esportivas presentes no mercado para comercialização apresentam-se maiores propriedades para hidratação, quando comparada com a água, por se constituir em um líquido mais completo para a reposição hídrica, de eletrólitos e carboidratos e por apresentarem maior palatabilidade.

    Além do explicitado no parágrafo anterior, vale ressaltar que a temperatura do líquido ingerido não é o fator determinante para este cumpra o papel na hidratação. (PINTO; RODRIGUES; VIVEIROS; SILAMI-GRACIA, 2001). No entanto, a ingestão de líquidos em temperaturas frias aproximadamente 4º C, parece apresentar menor rejeição pelos atletas, quando comparadas a líquidos em temperaturas mais elevadas. Pois, as bebidas em temperaturas mais frias, aumentam a palatabilidade, o que ajudaria o atleta em exercício a se sentir melhor e ingerir mais líquidos. Tais efeitos sobre a sensação de bem-estar dos atletas não podem ser ignorados (MAUGHAN; SHIRREFES; LEIPER, 2003).

    Mas, retornando a as estratégias de reposição hídricas, Marquezi e Lancha Júnior (1998), também afirmam que o consumo de uma solução contendo sódio (30 a 40 mEq), cloreto (30 a 40 (mEq) e carboidrato (50g/h) contribui para a reposição hídrica, para a ressíntese de glicogênio e de sódio após as atividades. Os autores supracitados destacam que a reidratação deve ocorrer preferencialmente no primeiros 20 minutos do período de recuperação, sendo que a solução deve apresentar boa palatabilidade a fim de encorajar o seu consumo.
Apesar de Vargas (2004) apontar indicações semelhantes quanto à característica e volume das bebidas ingeridas antes, durante e após os jogos, ele complementa afirmando, que os jogadores de futebol deve consumir um adicional de 250 ml de bebida esportiva imediatamente antes da partida. Além disso, ele destaca que os jogadores deverão ingerir a quantidade necessária para compensar as perdas ocorridas pelo suor.

    O autor acima mencionado, afirma que a forma ideal de quantificar a necessidade de reposição hídrica dos futebolistas é pela pesagem dos jogadores antes e depois dos exercícios sem os acessórios.

    Neste sentido, Vargas (2004) apresenta uma metodologia para o determinar individualmente o volume total de líquidos que devem ser ingeridos pelos atletas. O método consiste em pesar o atleta antes do treino, com a maior precisão possível, de preferência sem roupas e com a bexiga completamente esvaziada. Durante o treino, deve-se registrar todo volume de líquido ingerido. E, finalmente, deve-se urinar, medir o volume de urina, e pesar novamente nas mesmas condições que anteriormente.

    No decorrer do exercício, deve-se ingerir todo o líquido que deseja, porém deve-se parar de ingeri-lo ao término do exercício até depois da pesagem.

1.Tabela de pesagem (extraído de Vargas (2004), p. 90).

Folha para calcular a taxa de sudorese e avaliar a hidratação.
Nome: ___________________________________________________________________
Data e hora: _____________ Lugar: _____________

Peso Inicial (em gramas)
A _____________
Peso Final (em gramas)
B _____________
Ingestão de líquido (mililitros)
C _____________
Tempo de exercício (minutos)
D _____________
Volume de urina (mililitros)
E _____________
Taxa de sudorese = [(A-B+C-E)/D]*60
F _____________ ml/h

    Após a coleta dos dados como indicado acima, deve obter um valor na linha F que varia em 200 a 1500 ml/h, dependendo da intensidade do exercício, das condições ambientais, graus de aclimatação e de outras características individuais. A quantidade da linha F representa o total de líquido que se deveria repor durante cada hora de exercício, supondo as condições estarem semelhantes com as do dia da realização do levantamento (VARGAS, 2004).

    Caso o valor obtido apresente uma quantidade negativa é porque se consumiu mais líquido do que o que foi perdido pelo suor, ou porque deve ter ocorrido algum erro na medição, ou nos cálculos. Outra dica apresentada por Vargas (2004) para a otimização deste controle, trata-se realização da operação de subtração de A-B, se caso obtiver um valor positivo maior do que 400 gramas significa que não houve ingestão significativa de líquido durante o exercício e que se deveria o atleta se esforçar para se acostumar a beber mais líquido durante a prática da atividade física.

    Por fim, Vargas (2004) apresenta algumas medidas a fim de incentivar o hábito da ingestão de líquido. O autor afirma que no local do treinamento e dos jogos, deve-se ter garrafas individuais marcadas com o nome de cada jogador, com acesso fácil durante as pausas no jogo e no intervalo. Isto além de ajudar na reposição hídrica também pode servir para o acompanhamento da ingestão de líquido de cada atleta.

Considerações finais

    Acreditamos que as informações apresentadas acima possam ajudar os responsáveis pela preparação de futebolistas, no que se refere a estratégias de reposição hídrica. Procuramos selecionar informações que atendam os anseios daqueles que estão envolvidos diretamente no dia a dia dos atletas. Obviamente uma discussão mais aprofundada dos mecanismos referentes à adaptação do organismo humano ao estresse ambiental e ao controle da desidratação necessitam de um maior embasamento científico. Algumas informações a este respeito podem ser encontradas na literatura referenciada abaixo.

    Mas, vale retomar alguns pontos discutidos ao longo do trabalho que imaginamos ser essenciais para o evitar que os atletas tenham seu desempenho e sua saúde prejudicada pela desidratação. Primeiramente os treinadores, preparadores físicos e responsáveis pela modalidade devem encorajar os atletas para que estes ingeriam líquidos durantes os treinamentos e jogos. Além disto, estes profissionais devem adotar medidas organizacionais que incentivem os atletas a adquirirem o hábito da ingestão de líquido, como por exemplo, a disponibilidade de garrafas com líquido próximo ao local dos exercícios, paradas freqüentes das atividades para a hidratação, entre outras.

    Outros aspectos importantes a serem retomados referem-se ao tipo e a temperatura da bebida ofertada aos jogadores. Como evidenciado na discussão acima, as bebidas isotônicas comerciais fornecidas geladas, parecem serem melhores do que a água para a reposição hídrica, de eletrólitos e glicogênio; elementos que são essenciais para prevenção na queda do desempenho e na prevenção de patologias como a hiponatremia. O consumo destas bebidas antes, durante e após os treinamentos e jogos previne que o organismo inicie os eventos esportivos desidratados, evitando o aparecimento da fadiga precoce e acelerando o processo de recuperação.

Referências

FLECK, S. F.; KRAMER, W. J. Fundamentos do treinamento de força muscular. Tradução Cecy Ramires Maduro. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed, 1999.

GUERA, I.; CHAVES, R.; BARROS, T.; TIRAPEGUI, J. The influence of fluid ingestion on performnce of soccer players during a match. Journal of Sport Science and Medicine. v. 3, p. 198-202, 2004.

KIRKENDALL, D. T. Fisiologia do Futebol. In: BARROS NETO, T. L. (Coord.). A ciência do exercício e dos esportes. Tradução: Cláudia Ridel Juzwiak. Porto Alegre: Artemed, 2003. cap. 48, p. 804-813.

MARTIN, L; LAMBETH, A.; SCOTT, D. Nutritional practices of national female soccer players: analysis and recommendations. Journal of Sport Science and Medicine. v. 5, p. 130-137, 2006.

MARQUEZI, M. L.; LANCHA JUNIOR, A. H. Estratégias de reposição hídrica: revisão e recomendações aplicadas. Revista Paulista de Educação Física. v.12, n. 2, p. 219-227, jul./dez. 1999.

MAUGHAN, R. J.; SHIRREFES, S. M.; LEIPER, J. B. Líquidos e eletrólitos durante o exercício. In: BARROS NETO, T. L. (Coord.). A ciência do exercício e dos esportes. Tradução: Cláudia Ridel Juzwiak. Porto Alegre: Artemed, 2003. cap. 28, p. 442-453.

OSTOJIC, M. S.; MAZIC,S. Effects of a corbohydrate-electrolyte drink on specific soccer tests and performance. Journal of Sport Science and Medicine. v. 1, p. 47-53, 2002.

PINTO, K. M. C.; RODRIGUES, L. O. C.; VIVEIROS, J. P.; SILAMI-GARCIA, E. Efeitos da temperatura da água ingerida sobre a fadiga durante o exercício em ambiente termoneutro. Revista Paulista de Educação Física. v.15, n. 1, p. 45-54, jan./jun. 2001.

VARGAS, L. F. A. Hidratação no futebol. In: BARROS, T. L.; GUERRA, I. Ciência do futebol. Barueri: Manole, 2004. cap. 5, p. 85-99.

Autor: Carlos Rogério Thiengo - thiengo@fc.unesp.br

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